À proa d'um navio de penedos, A navegar num doce mar de mosto, Capitão no seu posto De comando, S. Leonardo vai sulcando, As ondas Da eternidade, Sem pressa de chegar ao seu destino. Ancorado e feliz no cais humano, É num antecipado desengano Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos Nem vinhedos Na menina dos olhos deslumbrados; Doiros desaguados Serão charco de luz Envelhecida; Rasos, todos os montes Deixarão prolongar os horizontes Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima Da bem-aventurança. É lentamente que o rabelo avança Debaixo de seus pés de marinheiro. E cada hora a mais que gasta no caminho É um sorvo a mais de cheiro A terra e a rosmaninho.
Miguel Torga in Diario IX
Lembro-me de ser pequenina e de estar aqui. Lembro-me de achar que este só poderia ser o melhor lugar do mundo porque só o melhor lugar do mundo poderia ter esta vista... Lembro-me de não ter levado a minha pequena olympus cor-de-rosa e de arregalar muito os olhos quase sem pestanejar de forma a conseguir registar aquela imagem na minha memória. Lembro-me quando o meu tio se aproximou e em jeito de quem conta que o pai natal não existe, me ter dito que aquela vista não era nada... que eu é que ainda não tinha visto o Mundo... que havia sítios muito mais grandiosos com nomes curtos e sonantes como Paris ou Londres ou Viena... que havia os Alpes em Itália e que bem lá longe, até existia uma das sete maravilhas do Mundo, as piramides... E que ao pé de tudo isso aquele monte, que para mim não tinha nome, nada tinha de belo.
Hoje já fiz pic-nics nas margens do Sena, já me perdi nos mercados de Camden Town e Nothing Hill, já fui à Ópera em Viena, já senti no meu rosto o frio dos Alpes e já respirei o sol tórrido junto às pirâmides de Gizé.... e porque já fiz tudo isso sei... sei porque é que para mim aquele monte não tinha nome. Não precisava de o ter. Era simplesmente o melhor lugar do mundo. É simplesmente o melhor lugar do mundo.